Tempus Fugit


17/02/2011


Sobre ratos e carroças vazias

Diz uma fábula que pai e filho caminhavam por uma estrada quando ouviram o barulho de uma carroça. O pai, já velho, virou-se para o filho e afirmou que a carroça estava vazia. O filho, surpreso, perguntou ao pai como ele sabia que ela estava vazia antes mesmo de vê-la. E então, o pai respondeu: "meu filho, quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz!" E assim acontece com as pessoas. Quanto mais vazias, mais barulhentas e inconvenientes. Nada mais sábio!

Há também outra, não menos sábia, que fala de um aviador português que possuía um grande sonho: sonhava em dar a volta ao mundo em um monomotor. E então, pôs-se a construí-lo cuidadosamente, peça por peça. Acontece que, pouco tempo depois de decolar, o aviador ouviu ruídos e percebeu que ratos roíam a cobertura da aeronave. Pensou em desistir do sonho e fazer um pouso. Contudo, ao invés de descer, começou a subir cada vez mais alto. Quanto mais os ratos roíam, mais o aviador desaparecia nas alturas, até que os ratos não resistiram ao ar das camadas mais altas e despencaram do avião. O piloto, assim, seguiu seu destino…

Quem achar que com palavras e injúrias pode destruir os sonhos dos outros, está fadado ao fracasso e à solidão. Se alguém o ameaçar destruir por inveja, calúnias, fazendo mal só por prazer, voem mais alto. Se o criticarem, voem mais alto! Se lhe fizerem injustiças e más crenças, voem mais alto! Se a incompetência de alguém os atacar, voem mais alto! Tudo o que quiserem lhes fazer de mal, só por serem maldosos, voem mais alto! Tenham sempre em mente que ratos nunca conseguem resistir às grandes alturas. E, mais que isso, como disse Paulo Tatit: "todo rato prefere o escuro e lambe restos."

Escrito por Mila às 18h45
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07/05/2010


Desconstruir;

 

Ato de desfazer o que está construído. Desmontar, desagregar, apagar, remover o que está construído.

Segundo E. Husserl, a desconstrução não significa destruição, mas sim desmontagem, decomposição dos elementos.

Jogos, projetos, conceitos, ideias, pessoas, lugares, sonhos... Desconstrói-se para construir de novo. Construir em cima da base de outro projeto é calçar um sapato cujo número não é o seu.

È como pintar uma parede que já foi pintada inúmeras vezes e já começa a descascar. È preciso raspar as tintas antigas, fazer uma nova base e, aí sim, pintar novamente com outra cor.

Às vezes fazemos projetos para a vida. Às vezes a vida faz projetos para nós. É preciso alinhá-los e muitas vezes refazer os planos. É preciso questionar-se, exergar-se, desconstruir-se...

Descontroem-se também sentimentos. Medos sem explicações, inseguranças, tristezas, desânimos, ciúmes... Para identificar o que os provoca é preciso descontruí-los e nesse processo descontruír-se também. Afinal, como se espanta algo de dentro de si sem destruir-se um pouco?

Desconstroem-se pessoas, imagens que criamos e que não são reais. Ou pessoas que mudaram e já não são aquelas que um dia conhecemos. E, nesse caso, é preciso desconstruir nossas projeções. Peça por peça, pouco a pouco. É preciso despedir-se do velho.

Desconstruir também é mudar. Mudar para criar algo novo. É reinventar-se para, assim, assumir novos desafios, novas funções, sonhar novos sonhos. “Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada”.

Escrito por Mila às 13h56
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11/09/2009


Se não agora, quando?

Composição: George Israel/Leoni/Luciana Fregolente

Serei feliz quando juntar dinheiro
Der a volta ao mundo e mudar de emprego
Serei feliz quando estiver mais magro
E couber em qualquer roupa que estiver na moda

Serei feliz quando tiver respostas
Quando for famoso e me sentir seguro
Serei feliz quando ela for embora
Quando o meu país me parecer mais justo

Serei feliz quando a dor passar
Serei feliz em outro lugar
Serei feliz quando você ligar
A sorte é que tem sempre alguém pra me lembrar

Que agora é o futuro
Que eu andava esperando
Agora é o futuro
Se não agora, quando
quando, quando, quando?

Serei feliz quando eu tiver dezoito
Sair de casa e comprar um carro
Serei feliz quando aos trinta e poucos
Comprar a minha casa e a vida for mais clara

Serei feliz quando um verso meu
Te fizer chorar e perder a fala
Serei feliz quando eu abrir a porta
E encontrar os meus problemas arrumando a mala

Serei feliz quando o sol nascer
Serei feliz quando Deus quiser
Serei feliz quando merecer
Mas escrevo pelos muros
pra não me esquecer

Escrito por Mila às 00h11
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27/08/2009


Sistema Educacional

Naquela época não existia o sistema de progressão continuada, os professores ainda reprovavam e eram os que mandavam na sala. Tá certo que já havia sido abolido o método da palmatória, mas os alunos ainda preferiam não contrariar os professores, pois ainda existia a tal metodologia de deixar de castigo no recreio, escrever no quadro ou no caderno as cem vezes “devo obedecer ao professor”, entre outros “métodos de recuperação do aluno”.

Naquele dia a menina estava especialmente inspirada a cooperar com a professora e com o sistema de ensino. Decidiu que não devia fazer os deveres e trabalho de qualquer jeito. Lembrava do sermão de sua mãe ao ver seus garranchos na lição de casa e reclamar de uma letra tão feia. Era mesmo. Não porque não conseguisse fazer melhor, mas porque dava preguiça de fazer tudo tão redondinho, as perninhas das letras se encontrando e tal... Bem diferente de sua irmã, sempre tão caprichosa!

Por isso, resolveu, ao menos uma vez na vida, que iria tentar e se esforçar mais. Caprichou na lição de casa e a letra saiu uma maravilha. Ela era mesmo capaz! Foi pra escola toda orgulhosa esperando que a professora fizesse a pergunta sobre quem fez o dever de casa. Ela, então mostraria o seu e a professora lhe daria os parabéns pela letra caprichada. Momentos de espera eternos, e a pergunta foi feita.

- Quem fez o dever que eu passei pra casa?

Os alunos começaram a tirar os cadernos das bolsas e abrir na página especificada. A professora iria de mesa em mesa a olhar os exercícios, recolhendo os cadernos. Chegou a sua vez. Ela entrega o caderno radiante. A professora olha. As respostas estão todas corretas, e aquela letra....

- Quem fez esta lição?

- Eu, professora!

- Essa letra não é sua.

- É sim senhora.

- Parece com a letra da sua irmã. Apague e refaça.

Como foi dito, naquela época não se contrariava a professora. Ela mandava e os alunos obedeciam. Ela apagou, mas sentiu-se injustiçada. Então a professora achava que ela não era capaz de fazer uma letra bonita? Em parte tinha culpa, pois nunca tinha se esforçado pra valer nas atividades. Mas agora era diferente. Ela queria mostrar que conseguia, que sabia fazer.

Refez a lição e caprichou ainda mais na letra.

- Terminei, professora.

...

- Você está cobrindo a marca da letra. Faça você a lição.

A hora do recreio estava chegando e tem horas que entre insistir no orgulho ferido e juntar-se aos outros na brincadeira de pega-pega, a brincadeira fala mais alto. Que vença o sistema educacional. Fez a letra no seu costumeiro garrancho, recebeu o “muito bem” da professora e saiu pra brincar.

Escrito por Mila às 11h45
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23/08/2009


Como se rouba um coração...

Para se roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade, tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa.
Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado.
Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente.
Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim, cuidar de uma criança.
É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade.
Para se conquistar um coração definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos.
Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes, que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago.
...e então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco.
Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração.
Eles sofrerão altos e baixos sim, mas com certeza haverá instantes, milhares de instantes de alegria.
Baterá descompassado muitas vezes e sabe por que?
Faltará a metade dele que ainda não está junto de nós.
Até que um dia, cansado de estar dividido ao meio, esse coração chamará a sua outra parte e alguém por vontade própria, sem que precisemos roubá-la ou furtá-la nos entregará a metade que faltava.
... e é assim que se rouba um coração, fácil não?
Pois é, nós só precisaremos roubar uma metade, a outra virá na nossa mão e ficará detectado um roubo então!
E é só por isso que encontramos tantas pessoas pela vida a fora que dizem que nunca mais conseguiram amar alguém... é simples...
é porque elas não possuem mais coração, eles foram roubados, arrancados do seu peito, e somente com um grande amor ela terá um novo coração, afinal de contas, corações são para serem divididos, e com certeza esse grande amor repartirá o dele com você.

Luís Fernando Veríssimo

Escrito por Mila às 22h13
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01/08/2009


QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

E a vida é engraçada!!

Escrito por Mila às 17h56
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08/07/2009


A Martha, sempre a Martha! :)

O Contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

Escrito por Mila às 12h12
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16/04/2009


Vampiros - Martha Medeiros

 

"Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no estacionamento de um shopping, no balcão de um bar. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo.

Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo de que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia, você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne.

Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí, ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece também em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia.


E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor. Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais."

Escrito por Mila às 15h27
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06/02/2008


A DESPEDIDA DO AMOR

(Martha Medeiros)

Existem duas dores de amor: A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro,  com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva, já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado. Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos.  A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre,  sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também...

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.  Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.  É que, sem se darem conta, não querem se desprender. Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida...  Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual  a gente se apega. Faz parte de nós. 

 Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis,  mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo,  que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível.  Talvez, por isso, costuma durar mais do que a 'dor-de-cotovelo' propriamente dita. É uma dor que nos confunde.  Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos  deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por  ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos,  que nos colocava dentro das estatísticas: "Eu amo, logo existo".

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.  É o arremate de uma história que terminou,  externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente...  E só então a gente poderá amar, de novo.

Escrito por Mila às 17h54
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28/01/2008


 

Tentando um novo amor
(Martha Medeiros)

Para curar uma dor de amor, digam o que quiserem, só conheço um remédio: um amor novinho em folha. Enquanto nosso coração não encontrar outro pretendente, ficaremos cultivando o velho amor, alimentando-o diariamente, sofrendo por ele e, no fundo, bem no fundinho, felizes por ter para quem dedicar nossos ais e nossa insônia. A gente só enterra mesmo o defunto quando outra pessoa surge para ocupar o posto.

Se isso lhe parece uma teoria simplista, toque aqui. É simplista sim. Isso de enterrar o defunto do dia pra noite só funciona quando o defunto era apenas uma paixonite, um entusiasmo, fogo de palha. Porém, se era algo realmente profundo, um sentimento maduro, aí o efeito do novo amor pode revelar-se um belo tiro pela culatra. Ele acabará servindo apenas para dar a você a total certeza de que aquele amor anterior era realmente um bem durável. E a dor voltará redobrada.

Um beijo que deveria inaugurar uma nova fase em sua vida pode trazer à tona lembranças fortes do passado, e nem é preciso comparar os beijos, apenas as sensações provocadas. Quem já vivenciou isso sabe o constrangimento que é beijar alguém e morrer de saudades do antecessor.

Um novo amor pode transformar o que era opaco em transparência: você não sabia exatamente o que sentia pelo ex, se era amor ou não, então surge outra pessoa e você descobre que sim, era amor, caso contrário não sentiria esse abandono, essa perturbação, essa forte impressão de que está fazendo uma tentativa inútil, de que não conseguirá ir adiante.

Mas o que fazer? Encarar uma vida monástica, celibatária? Nada disso. Viva as tentativas inúteis! Uma, duas, três, até que alguma delas consiga superar de vez a inquietação do passado, que venha realmente inaugurar uma nova fase em sua agenda amorosa, que deixe você tranqüilo em relação ao que viveu e ao que deve viver daqui pra frente.

No entanto, quanto mais escrevo, mais me dou conta de que não há fórmula que dê garantia para nossas atitudes, de que não há pessoa neste mundo que não possa nos surpreender, de que tudo o que vivemos são tentativas, e que inútil, inútil mesmo, nenhuma é.

Escrito por Mila às 11h34
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21/01/2008


METADE


Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, a outra metade é silêncio.


Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, a outra metade é saudade.


Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.


Que a minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, a outra metade um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade não sei.


Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, a outra metade é cansaço.


Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia a outra metade é canção.


Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

Escrito por Mila às 14h15
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29/08/2006


Rubem Alves, sempre ele....

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando sempre faltam 5 minutos para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada em especial.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro...

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Escrito por Mila às 13h09
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continuando...

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em outra época do ano.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... também não. É um "desadoro"... Uma batelada?  Um exame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero,  um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?  Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor não sei explicar...

 

Escrito por Mila às 13h09
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01/08/2006


Legião Urbana - Quase Sem Querer

Tenho andado distraído, 
Impaciente e indeciso 
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:  
Estou tão tranquilo  
E tão contente.  
Quantas chances  
desperdicei  
Quando o que eu mais queria 
Era provar pra todo o mundo  
Que eu não precisava 
Provar nada p'ra ninguém.  
Me fiz em mil pedaços  
P'ra você juntar  
E queria sempre achar  
Explicação p'ro que eu sentia.
Como um anjo caído  
Fiz questão de esquecer  
Que mentir p'ra si mesmo  
É sempre a pior mentira.  
Mas não sou mais 
Tão criança a ponto de saber tudo.  
Já não me preocupo 
Se eu não sei porquê  
Às vezes o que eu vejo  
Quase ninguém vê 
E eu sei que você sabe 
Quase sem querer 
Que eu vejo o mesmo que você.  
Tão correto e tão bonito  
O infinito é realmente  
Um dos deuses mais lindos.  
Sei que às vezes uso  
Palavras repetidas  
Mas quais são as palavras 
Que nunca são ditas?  
Me disseram que você  
estava chorando  
E foi então que percebi 
Como lhe quero tanto.  
Já não me preocupo  
Se eu não sei porquê  
Às vezes o que eu vejo  
Quase ninguém vê  
E eu sei que você sabe  
Quase sem querer  
Que eu quero o mesmo que você

Escrito por Mila às 17h05
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01/12/2005


Borboletas

 

Ontem navegando na internet achei esse texto que não sei se é de Martha Medeiros ou Mário Quintana. Não me importa. O que importa é o conteúdo dele, que me espelhou bem.

 "A idade vai chegando e, com o passar do tempo, nossas prioridades na vida vão mudando... A vida profissional, a monografia de final de curso, as contas a pagar. Mas uma coisa parece estar sempre presente. A busca pela felicidade com o amor da sua vida.

Desde pequenas ficamos nos perguntando "quando será que vai chegar?". E a cada nova paquera, vez ou outra nos pegamos na dúvida "será que é ele?". Como diz o meu pai: "nessa idade tudo é definitivo", pelo menos a gente achava que era. Cada namorado era o novo homem da sua vida. Faziam planos, escolhiam o nome dos filhos, o lugar da lua-de-mel e, de repente... PLAFT! Como num passe de mágica ele desaparecia, fazendo criar mais expectativas a respeito "do próximo".

Você percebe que cair na guerra quando se termina um namoro é muito natural, mas que já não dura mais de três meses. Agora, você procura melhor e começa a ser mais seletiva. Procura um cara formado, trabalhador, bem resolvido, inteligente, com aquele papo que a deixa sentada no bar o resto da noite. Você procura por alguém que cuide de você quando está doente, que não reclame em trocar aquele churrasco dos amigos pelo aniversário da sua avó, que jogue "imagem e ação" e se divirta como uma criança, que sorria de felicidade quando te olha, mesmo quando está de short, camiseta e chinelo.

A liberdade, ficar sem compromisso, sair sem dar satisfação já não tem o mesmo valor que tinha antes. A gente inventa um monte de desculpas esfarrapadas, mas continuamos com a procura incessante por uma pessoa legal, que nos complete e vice-versa. Enquanto tivermos maquiagem e perfume, vamos à luta... E haja dinheiro para manter a presença em todos os eventos da cidade: churrasco, festinhas, boates na quinta-feira. Sem falar na diversidade que vai do Forró ao Beatles.

Mas o melhor dessa parte é se divertir com as amigas, rir até doer a barriga, fazer aqueles passinhos bregas de antigamente e curtir o som... Olhar para o teto, cantar bem alto aquela música que você adora. Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz com uma outra pessoa, você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquele cara que você ama (ou acha que ama), e que não quer nada com você, definitivamente não é o homem da sua vida.

Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você!"

Escrito por Mila às 01h44
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